Archive for novembro \26\UTC 2009

Geisy: vítima ou dissimulada?

26 de novembro de 2009

Há algumas semanas, muitos, e eu fui um deles, ficaram impressionados com a situação por que passou a estudante de Turismo Geisy Arruda, 20, na Uniban, em São Paulo. Vítima de uma regressão comportamental, ela foi expulsa do recinto onde estudava de forma vexatória e se tornou o assunto da vez com toda a justiça que lhe cabia. 

Foi revoltante ver em um ambiente universitário uma moça ser humilhada pela maioria ensandecida por apenas usar um vestido, digamos, ousado. Ali retrataram-se vários recalques e princípios morais que ditavam regras no início do século passado. Foi lamentável e todas as manifestações em favor a Geisy foram pertinentes e justas. 

Qual não foi minha surpresa ao receber um e-mail em que a vítima aparece em uma foto, abraçada, sorridente e feliz, ao lado do Casseta Cláudio Manoel sinalizando uma aparição no humorístico. Já ouvi que ela também irá ao “Zorra Total” e que a escola de samba Unidos do Porto da Pedra, em São Gonçalo, RJ, a convidou para ser musa ou rainha da bateria no próximo Carnaval. 

Não sei como serão as esquetes dos programas, se haverá alguma crítica sobre o assunto, mas a gravidade do que foi aquela agressão não me parece combinar muito com o “oba-oba” de humorísticos. Seria decepcionante se Geisy estiver tirando apenas proveito pessoal da situação para, quem sabe, ficar famosa. Já a vejo usando a alcunha da mulher-guerreira-que-resistiu-a-caretice-e-hipocrisia-da-sociedade. 

Não sei não … mas acho que o fato ocorrido na Uniban merecia um pouco mais de seriedade. E não um contra ataque baixo, onde, ao final de tudo, ela poderá posar como mais uma mulher objeto. Se eu estiver errado, me desculpem. E espero que eu esteja.

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Eu, o árabe e Ahmadinejad

23 de novembro de 2009

Há uns dois anos, se não me engano, viajei de férias para a Bahia. Resolvi comprar um livro para ler durante o vôo. Era sobre o movimento radical islâmico Hamas. Arrependi-me depois, pois era uma visão muito parcial da galera feita por um jornalista árabe. 

Ao sentar-me na poltrona, comecei a leitura. Chegou o vizinho, com jeito assustado. Também sentou-se e o avião decolou. Fechei o livro e o coloquei na mesinha. Eis que noto o colega de viagem meio incomodado ao ver a capa. “Deve achar que vou explodir essa porra. Preconceituoso!”, pensei. Qual não foi minha surpresa ao ver o enigmático vizinho sacar um Alcorão de sua bolsa e iniciar o processo de oração. 

Não podia deixar passar a oportunidade de conversar com a figura. Esperei o término do ritual, repleto de mãos à cabeça e repetição de palavras, e puxei conversa de uma forma meio atrapalhada, sem saber, ao menos, se ele falava português. 

“Com licença. Noto que és seguidor de Maomé. Estou lendo esse livro, gostas do tema?” Arrependi-me da amadora abordagem, mas era tarde. Ele se vira para mim e, em silêncio, toma o livro e o começa a acariciar como um filho querido. 

Bom, pelo visto, tinha agradado. E começamos a conversa, que durou toda a viagem. Nascido e criado na Arábia, passa metade do ano em seu país e o restante no Brasil, a negócios. Seu irmão é presidente de uma sociedade árabe com sede, vejam só, na Lapa. Empreiteiro, disse ele. Gosta daqui, mas acha o povo meio mal educado e desrespeitoso em alguns momentos, apontando, como exemplo, uma passageira à frente que xingava muito enquanto conversava. 

Papo vai, papo vem, não poderia deixar de fazer a pergunta mágica. “E os judeus? Até quando vocês vão viver assim?”. 

O amistoso árabe, de repente, transformou-se na minha frente e seu olhar traduziu anos de ódio e um terrível sentimento de vingança. Com o dedo em riste e a voz firme, respondeu com o sotaque característico: “Impossível! Não há como dialogar com esse povo. Nos roubaram nossa terra e identidade!”, sentenciou. Irresponsavelmente, insisti no debate. “Já disse! Não há como haver paz com essa gente!”, bradou. 

Resolvi parar, pois a causa era perdida. Continuamos a falar de amenidades e de nossas culturas e desembarquei na terra dos orixás com a bênção de Alah, como ele mesmo disse. 

Fico imaginando Lula ouvindo as mesmas frases de Mahmoud Ahmadinejad. Meu colega tinha a mesma cara do presidente do Irã, com aquele sorrisão simpático. Mas que ainda alimenta muito ressentimento. Acho válida a tentativa de aproximação do Brasil com o Irã, embora saiba que os tais acordos de paz ainda estejam no campo das idéias e que definir uma linha de diálogo requer muito tempo e esforço. Há muitas marcas e o ódio chega a ser cultural, passado de geração a geração. Mas alguém tem que começar. Pelo menos chegarmos ao bom senso de convivência.

 Desejo sorte a Lula nessa empreitada pela nada fácil paz mundial.

O Rio não é violento

6 de novembro de 2009

Caríssimos, muitos vão me condenar, mas vou ter que concordar com o secretário estadual de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. O Rio de Janeiro não é mesmo violento.

E agradeçam tão somente aos bandidos pela tranqüilidade carioca. Alguém parou para imaginar se toda a galera do mal, com o poder de fogo que tem, resolvesse barbarizar mesmo o asfalto? Basta querer. Porque quando querem, derrubam helicóptero, fazem atentados orquestrados, comandam execuções dos presídios e o que mais acharem legal.

Fausto Fawcett já nos alertou que o Rio é uma cidade de cidades misturadas. Tá tudo junto, asfalto e favela, bandido e mocinho, traficante e senhorinha, delinqüente e patricinha. Tiroteio e arrastão nas linhas expressas e Avenida Brasil? Era para ter mais. Já viu os locais que elas cortam? Praticamente o quintal do tráfico.

Confronto Macacos x São João? Foi pouco. Lembrando que cerca de 100 homens com fuzis no braço cruzaram ruas da cidade em carros de passeio para chegarem ao local. Os três jovens inocentes que chegavam de uma festa e foram assassinados na entrada da comunidade é uma prova de que a carnificina poderia ter começado muito antes. Quem ia controlar?

Tijuca violenta? Era para ser pior. Bairro refém da geografia dos morros, é um grande hall da bandidagem. Copacabana violenta? Era para ser pior. Pavão, Cantagalo, Tabajaras … Lembrando que na invasão ao Tabajaras, no ano passado, um grupo de traficantes armados foi preso dentro de uma van que cruzava a Rua Siqueira Campos, por volta das 19 horas. As famílias todas na rua. Se rola um tiroteio mesmo daqueles …

Ah, fora o Carnaval, ali na meiuca do Sambódromo cercado de favelas. Uma paz, não? Sempre lembro do filme “Orfeu do Carnaval”, na versão de Cacá Diegues, em que um jovenzinho aparece em uma laje de um barraco no Morro da Mineira. Ele assiste ao desfile das Escolas de Samba pela mira de seu fuzil, procurando o protagonista. Ao localizá-lo, desfilando, imagina apertando o gatilho. Simples assim. Era só apertar. A cena nada mais é do que uma situação perfeitamente possível.

Sou solidário a todas as vítimas de violência, me penalizo com a morte de inocentes e acredito que só a polícia, reduzida, não resolve. Tem que ter peito para resolver isso tudo. Ou alguém ainda acredita que é o jovem de bermuda, chinelo e pistola o grande mentor disso tudo?

E outra, morar na Cidade Maravilhosa, cartão postal do mundo, padrão forçado de comportamento para o resto do Brasil, a cidade dos sonhos e do progresso, repleta de desigualdades, tinha que ter um preço. E podia ser mais caro, não tenham dúvida.