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Novo golpe na Novo Rio

30 de março de 2010

No rápido fim de semana que passei no Rio, esta semana, pude constatar mais uma malandragem no Terminal Rodoviário Novo Rio, mais precisamente no guichê da Viação 1001. Estava ali para comprar uma passagem para Iguaba, por volta de 18h30m de sexta-feira, horário pra lá de complicado. Eram umas 100 pessoas na fila, cenário perfeito para os malandros atacarem. 

Enquanto aguardava, um rapaz que estava ao lado (era fila caracol), muito suspeito, me aborda de repente como se fosse um agente secreto: “Macaé? Macaé?”. Tomei o inicial susto pelo inesperado e respondi que não, naturalmente. Então, sem pestanejar, ele saiu de seu lugar e foi para outro, como se não quisesse despertar suspeitas. Passei a prestar atenção e vi que várias outras pessoas repetiam o ritual em diferentes pontos da fila, cada um oferecendo um destino diferente. Guardas da rodoviária percebiam a ação e tentavam expulsar o pessoal. Em vão. Eles saiam, davam meia volta e voltavam a coagir. 

Pelo esquema abusivo pensei em se tratar dos topiqueiros irregulares. Até que um passageiro aceitou a sedução.  E o malandro garantiu em voz alta. “Pode chegar, parceiro, não é Topic não, é ônibus da 1001 mesmo”, garantiu. Bingo! Um golpe nas dependências da parte lesada. Eis que veio a explicação de um passageiro à minha frente. “Isso é o seguinte. É o pessoal que não consegue gastar o Rio Card (vale transporte eletrônico) durante o mês e com o que sobra, compra passagens para revender na fila”, explicou. Confirmei, mais tarde, a história com os motoristas da empresa. 

Bom, nem parece tão grave, mas golpe é golpe. E da forma clandestina como é aplicado, é bom abrir o olho. Reparando bem, notei que a rapaziada parecia agir em nome de um só, pois se comunicavam a todo momento, inclusive com rádios. Esquema profissional. E outra, se eles não conseguem vender as passagens, alguém vai ficar sem viajar, não? E vai saber se não tem esquema de “lavagem” de Rio Card na parada, esquema na própria empresa … Não custa se ligar …

Malditos royalties!

11 de março de 2010

Tenho acompanhado, nos últimos dias, a discussão sobre a redistribuição dos royalties do petróleo. Não vou aqui discutir quem está certo ou errado nesta história, pois os interesses estão em um buraco bem mais embaixo. Mas vou falar de uma experiência pessoal, pois minha vida se confunde com o antes e depois dos royalties. 

Minha família paterna, muito humilde, tem sua origem no município de Quissamã, Norte Fluminense do estado do Rio, com braços nas cidades de Macaé e Carapebus. As três cidades se beneficiam, atualmente, com os recursos de nosso petróleo.

Criança, costumava ir sempre a Quissamã visitar a parentada e ficava assustado com a pobreza dos lugares e o sofrimento das pessoas mais humildes que não tinham outra alternativa a não ser trabalhar nas lavouras de cana, que eram monopolizadas por apenas um usineiro, que fazia o que bem entendia, inclusive na política. Coronelismo puro …

Passado o tempo, o petróleo foi jorrando e as políticas econômicas saindo do papel. Foi instituído o royaltie para as cidades que se localizavam nas áreas de jazidas. A partir daí, a mudança foi integral.

De pobre, Quissamã se tornou rainha. Reformulação total, desenvolvimento, infra estrutura e festa, muita festa! Toda semana era um megaevento na praça ou parque de exposição. Coisa fina … Ficava impressionado com as mudanças a cada visita. Ela se tornou, inclusive, modelo mundial de qualidade de vida, título concedido por uma dessas ONGs aí e até o então presidente FHC pegou carona na notícia.

Todos, mas todos mesmo, queriam morar no oásis Quissamã. Meu padrinho, aposentado da Varig, foi correndo pra lá. “Aqui, nem comida precisa comprar, o governo dá tudo!”, lembro dele falando. E era assim mesmo. Tudo era dado pela prefeitura dos Carneiro, família de usineiros, que deu uma abrandada no coronelismo.

E foi justamente aí que começaram os problemas.

O argumento de meu primo, que também viu o antes e depois do lugarejo, foi decisivo para minhas elaborações. “Quero ver o dia que essa grana parar de pingar, o que esse povo vai fazer da vida. Aqui, eles se acostumaram a receber tudo sem fazer força”, dizia.

Pois é, essa é a conseqüência da boa e velha política do assistencialismo que muitos ainda adoram colocar em prática. Macaé, a grande metrópole, não conseguiu acompanhar o desenvolvimento. Muitos, atraídos pela tal qualidade de vida, se mudaram para lá inchando a cidade e criando os bolsões de pobreza. Pois lá, quem não entra na Petrobras, não tem outra saída. E tome cidade mais violenta do estado do Rio. Em Carapebus, a emancipação irresponsável de olho nos royalties provoca mortes políticas e muita roubalheira até hoje.

Se a emenda Ibsen vai passar é outra história. Os governantes das “Dubais” fluminenses deveriam ter imaginado que nem toda a riqueza é para sempre. E deveriam ter preparado seu povo para isso investindo mais em educação  e qualificação profissional.

Indico a leitura da matéria de Chico Santos, publicada no Valor Econômico de hoje (11/03), página A-2, sobre o assunto.