Malditos royalties!

Tenho acompanhado, nos últimos dias, a discussão sobre a redistribuição dos royalties do petróleo. Não vou aqui discutir quem está certo ou errado nesta história, pois os interesses estão em um buraco bem mais embaixo. Mas vou falar de uma experiência pessoal, pois minha vida se confunde com o antes e depois dos royalties. 

Minha família paterna, muito humilde, tem sua origem no município de Quissamã, Norte Fluminense do estado do Rio, com braços nas cidades de Macaé e Carapebus. As três cidades se beneficiam, atualmente, com os recursos de nosso petróleo.

Criança, costumava ir sempre a Quissamã visitar a parentada e ficava assustado com a pobreza dos lugares e o sofrimento das pessoas mais humildes que não tinham outra alternativa a não ser trabalhar nas lavouras de cana, que eram monopolizadas por apenas um usineiro, que fazia o que bem entendia, inclusive na política. Coronelismo puro …

Passado o tempo, o petróleo foi jorrando e as políticas econômicas saindo do papel. Foi instituído o royaltie para as cidades que se localizavam nas áreas de jazidas. A partir daí, a mudança foi integral.

De pobre, Quissamã se tornou rainha. Reformulação total, desenvolvimento, infra estrutura e festa, muita festa! Toda semana era um megaevento na praça ou parque de exposição. Coisa fina … Ficava impressionado com as mudanças a cada visita. Ela se tornou, inclusive, modelo mundial de qualidade de vida, título concedido por uma dessas ONGs aí e até o então presidente FHC pegou carona na notícia.

Todos, mas todos mesmo, queriam morar no oásis Quissamã. Meu padrinho, aposentado da Varig, foi correndo pra lá. “Aqui, nem comida precisa comprar, o governo dá tudo!”, lembro dele falando. E era assim mesmo. Tudo era dado pela prefeitura dos Carneiro, família de usineiros, que deu uma abrandada no coronelismo.

E foi justamente aí que começaram os problemas.

O argumento de meu primo, que também viu o antes e depois do lugarejo, foi decisivo para minhas elaborações. “Quero ver o dia que essa grana parar de pingar, o que esse povo vai fazer da vida. Aqui, eles se acostumaram a receber tudo sem fazer força”, dizia.

Pois é, essa é a conseqüência da boa e velha política do assistencialismo que muitos ainda adoram colocar em prática. Macaé, a grande metrópole, não conseguiu acompanhar o desenvolvimento. Muitos, atraídos pela tal qualidade de vida, se mudaram para lá inchando a cidade e criando os bolsões de pobreza. Pois lá, quem não entra na Petrobras, não tem outra saída. E tome cidade mais violenta do estado do Rio. Em Carapebus, a emancipação irresponsável de olho nos royalties provoca mortes políticas e muita roubalheira até hoje.

Se a emenda Ibsen vai passar é outra história. Os governantes das “Dubais” fluminenses deveriam ter imaginado que nem toda a riqueza é para sempre. E deveriam ter preparado seu povo para isso investindo mais em educação  e qualificação profissional.

Indico a leitura da matéria de Chico Santos, publicada no Valor Econômico de hoje (11/03), página A-2, sobre o assunto.

Anúncios

2 Respostas to “Malditos royalties!”

  1. roberth trindade Says:

    É meu velho, no Brasil é tudo assim… como cocacola agitada no carro enquanto anda: só pressão. Enquanto rolam essas discussões megalômanas infinitas vemos a miséria e a violência crescendo sem parar nas ruas!!!

  2. Geraldo Says:

    ja coloquei minha revolta no Blog da Ana Rodrigues. http://blogdaanarodrigues.blogspot.com/

    Mas vamos falar com a tarja preta.
    pegaram o dinheiro do estado e prefeituras e dividiram para todos..só que todos são mais de 5 mil prefeituras…
    Isso é roubo descarado..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: