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O abraço de D. Ivone

30 de maio de 2010

Faz parte do ofício de psicanalistas e antropólogos observar a relação entre o público e seus ídolos. Elas podem ocorrer de várias formas, desde a histeria até a saudável convivência. Sempre achei meio esquisitas as relações doentias em que alguns regem sua vida de acordo com seu astro-referência. Aqueles que não perdem um show, sabem todos seus passos, que fazem verdadeiras loucuras para estar ao lado deles. Nunca me senti à vontade neste papel.

Mas com D. Ivone Lara é diferente…

Em recente show em homenagem à artista, aqui em Brasilia, me vi como aqueles que acabei de criticar. Não sosseguei enquanto não cheguei perto da grande dama, fato consumado graças à brava Mariana Ribeiro, que entende dessas coisas. Abraçar D. Ivone não é o abraço normal do registro fotográfico. Não é o abraço na celebridade que o faz experimentar a ilusão de proximidade do artista. Abraçá-la significa envolver-se no ser humano de pureza no sorriso e brilho no olhar. É aconchegar-se na experiência e humildade. É também poder se ver um pouco ali abraçado a teu pai ou tua mãe. É pegar um pouquinho do axé infindável, bebendo na fonte do samba autêntico, sem estrelismos, sem holofotes.

É celebrar como a vida é boa quando ela é simples, quando basta um sorriso e boa vontade. É perceber que somos muito poucos perto do que nossa passagem aqui oferece. É rir, chorar, rir de novo e pensar … Saí daquele abraço fortificado, certamente bem melhor. E reforcei a minha velha crença de que o que vale mesmo é o abraço e o carinho. E, perdoem-me os outros ritmos, que também admiro muito, mas afeto e camaradagem são propriedades peculiares ao samba, minha eterna trilha sonora.

Salve Ivone e todos os seres de luz…