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O JB de papel acabou. E aí?

16 de julho de 2010

Poucas coisas são tão unânimes no imaginário de jornalistas como a célebre frase: “sempre que passava pela Ponte Rio-Niterói e via o prédio do JB, sonhava no dia em que eu fosse trabalhar lá”. Eu fui um dos que falou essa frase e acabou dando a sorte de baixar no prédio da Avenida Brasil, 500. Pertenci a última turma de estagiários que ingressou no jornal por meio de seleção e curso de formação. Bons tempos … Convivi com os medalhões, aprendi com eles e fiz amigos que estão comigo até hoje. Histórias que, obviamente, não caberiam em um post.

Quanto entrei lá, em 1999, a crise já havia se anunciado tímida. Foi crescendo, crescendo, até chegar onde chegou. Um empresário especulador consegue dar o golpe de misericódia para qualquer publicação impressa. Impedir que ela seja impressa. Final triste, melancólico e humilhante. Mas a vida é assim. Quem não faz, leva.

Poucos negócios – sim, jornal é um negócio – são tão difíceis de dar lucro como os periódicos impressos. A independência editorial tem um alto preço. Que, em algum momento, você não consegue mais pagar. No capitalismo selvagem em que vivemos, nenhum empresário quer ser mais mecenas da liberdade de expressão. Logo, quem não se aliar ao diabo de vez em quando, ou não souber gerir os recursos vindos do inferno, vai quebrar. Ou alguém acha que anunciante é coisa de Deus? Atire a primeira pedra quem nunca foi obrigado a fazer aquela matéria recomendada que não falava lé com cré.

É bom lembrar que o império de Chateubriand ruiu de maneira muito mais terrível. E era bem maior que o querido Jotinha. Só a revista Cruzeiro chegou a vender mais de 500 mil exemplares por edição. E quebrou porque não houve uma gestão compatível. Repórter sabe escrever notícia, não gerir negócio.

E, felizmente ou infelizmente (acho que infelizmente), jornal é uma empresa que tem um dono, que quer ter lucros com aquilo. E rápido. O tal mundo globalizado desestimula o empresário a pensar em longo prazo. É tudo para ontem.  E ainda tem esse papo de internet, mundo virtual …

Sempre tive muita raiva de uma frase que ouvia vez ou outra nos corredores da redação, vinda, na maioria das vezes, do lado do marketing: “notícia é o espaço onde não deu para colocar um anúncio”. O pior é que esse pensamento nojento faz sentido. Lamento o que acontece como JB, sinônimo de História Geral. Mas alguém foi culpado. E não foram os jornalistas, nem seu conteúdo. Foi incompetência administrativa. Como poderia ter sido com qualquer empresa.

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