Era uma vez uma COP-15 e uma Confecom

19 de dezembro de 2009

E o ano de 2009 vai terminando com dois importantes fiascos. A COP-15, na Dinamarca, fracasso total, e a Confecom, em Brasilia, que findou com ar melancólico. Tanta grita para nada.

A COP-15 chegou a se rotulada como “‘ultima chance para salvar o planeta”. E o que se viu foi uma grande boca livre para conhecer o curioso país onde sol quase não brilha e vários palanques eleitorais. E quem realmente brilhou, vejam só, foi mais uma vez o presidente Lula. Brilhou por seu natural dom hipnótico de oratória, que converte até ateu. Mas ele, que de bobo não tem nada, sabia disso e aplicou uma interessante estratégia. Jogou no colo dos grandes a culpa pelo fracasso e que ele, mesmo com poucas condições, está muito disposto a salvar o mundo. Ovacionado até por quem foi alvo do tapa. Nem Serra teve coragem de discordar do adversário. E Dilma vai colhendo os louros …

Já aqui, a Confecom, que tratou de propostas sobre comunicação, foi meio sonolenta. Essas iniciativas para discutir os rumos da comunicação e, principalmente, suas consequencias são muito bem vindas. Mas o que se ouviu falar foi uma guerra de egos e pouco comprometimento. Uma série de recomendações foram seladas, mas rolou um baixo astral quanto a efetivação do que foi decidido. Todos querem saber qual será o parlamentar que terá peito para implementar limites na concessão de canais e decência nas grades de programação.

As conferências terminaram meio sem a maioria perceber, com gente indo embora antes da hora. Aos que se empenharam, meus cumprimentos. Mas peço que não voltem para suas casas melancólicos, pois quem realmente pode decidir sobre a discussão deve estar, neste momento, pensando como será a Ceia de Natal ou onde será a festa de Réveillon. Enquanto isso, vamos tossir monóxidos, assistir baixarias na TV, abuso em publicações e arrogâncias afins.

Feliz Natal!

Geisy: vítima ou dissimulada?

26 de novembro de 2009

Há algumas semanas, muitos, e eu fui um deles, ficaram impressionados com a situação por que passou a estudante de Turismo Geisy Arruda, 20, na Uniban, em São Paulo. Vítima de uma regressão comportamental, ela foi expulsa do recinto onde estudava de forma vexatória e se tornou o assunto da vez com toda a justiça que lhe cabia. 

Foi revoltante ver em um ambiente universitário uma moça ser humilhada pela maioria ensandecida por apenas usar um vestido, digamos, ousado. Ali retrataram-se vários recalques e princípios morais que ditavam regras no início do século passado. Foi lamentável e todas as manifestações em favor a Geisy foram pertinentes e justas. 

Qual não foi minha surpresa ao receber um e-mail em que a vítima aparece em uma foto, abraçada, sorridente e feliz, ao lado do Casseta Cláudio Manoel sinalizando uma aparição no humorístico. Já ouvi que ela também irá ao “Zorra Total” e que a escola de samba Unidos do Porto da Pedra, em São Gonçalo, RJ, a convidou para ser musa ou rainha da bateria no próximo Carnaval. 

Não sei como serão as esquetes dos programas, se haverá alguma crítica sobre o assunto, mas a gravidade do que foi aquela agressão não me parece combinar muito com o “oba-oba” de humorísticos. Seria decepcionante se Geisy estiver tirando apenas proveito pessoal da situação para, quem sabe, ficar famosa. Já a vejo usando a alcunha da mulher-guerreira-que-resistiu-a-caretice-e-hipocrisia-da-sociedade. 

Não sei não … mas acho que o fato ocorrido na Uniban merecia um pouco mais de seriedade. E não um contra ataque baixo, onde, ao final de tudo, ela poderá posar como mais uma mulher objeto. Se eu estiver errado, me desculpem. E espero que eu esteja.

Eu, o árabe e Ahmadinejad

23 de novembro de 2009

Há uns dois anos, se não me engano, viajei de férias para a Bahia. Resolvi comprar um livro para ler durante o vôo. Era sobre o movimento radical islâmico Hamas. Arrependi-me depois, pois era uma visão muito parcial da galera feita por um jornalista árabe. 

Ao sentar-me na poltrona, comecei a leitura. Chegou o vizinho, com jeito assustado. Também sentou-se e o avião decolou. Fechei o livro e o coloquei na mesinha. Eis que noto o colega de viagem meio incomodado ao ver a capa. “Deve achar que vou explodir essa porra. Preconceituoso!”, pensei. Qual não foi minha surpresa ao ver o enigmático vizinho sacar um Alcorão de sua bolsa e iniciar o processo de oração. 

Não podia deixar passar a oportunidade de conversar com a figura. Esperei o término do ritual, repleto de mãos à cabeça e repetição de palavras, e puxei conversa de uma forma meio atrapalhada, sem saber, ao menos, se ele falava português. 

“Com licença. Noto que és seguidor de Maomé. Estou lendo esse livro, gostas do tema?” Arrependi-me da amadora abordagem, mas era tarde. Ele se vira para mim e, em silêncio, toma o livro e o começa a acariciar como um filho querido. 

Bom, pelo visto, tinha agradado. E começamos a conversa, que durou toda a viagem. Nascido e criado na Arábia, passa metade do ano em seu país e o restante no Brasil, a negócios. Seu irmão é presidente de uma sociedade árabe com sede, vejam só, na Lapa. Empreiteiro, disse ele. Gosta daqui, mas acha o povo meio mal educado e desrespeitoso em alguns momentos, apontando, como exemplo, uma passageira à frente que xingava muito enquanto conversava. 

Papo vai, papo vem, não poderia deixar de fazer a pergunta mágica. “E os judeus? Até quando vocês vão viver assim?”. 

O amistoso árabe, de repente, transformou-se na minha frente e seu olhar traduziu anos de ódio e um terrível sentimento de vingança. Com o dedo em riste e a voz firme, respondeu com o sotaque característico: “Impossível! Não há como dialogar com esse povo. Nos roubaram nossa terra e identidade!”, sentenciou. Irresponsavelmente, insisti no debate. “Já disse! Não há como haver paz com essa gente!”, bradou. 

Resolvi parar, pois a causa era perdida. Continuamos a falar de amenidades e de nossas culturas e desembarquei na terra dos orixás com a bênção de Alah, como ele mesmo disse. 

Fico imaginando Lula ouvindo as mesmas frases de Mahmoud Ahmadinejad. Meu colega tinha a mesma cara do presidente do Irã, com aquele sorrisão simpático. Mas que ainda alimenta muito ressentimento. Acho válida a tentativa de aproximação do Brasil com o Irã, embora saiba que os tais acordos de paz ainda estejam no campo das idéias e que definir uma linha de diálogo requer muito tempo e esforço. Há muitas marcas e o ódio chega a ser cultural, passado de geração a geração. Mas alguém tem que começar. Pelo menos chegarmos ao bom senso de convivência.

 Desejo sorte a Lula nessa empreitada pela nada fácil paz mundial.

O Rio não é violento

6 de novembro de 2009

Caríssimos, muitos vão me condenar, mas vou ter que concordar com o secretário estadual de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. O Rio de Janeiro não é mesmo violento.

E agradeçam tão somente aos bandidos pela tranqüilidade carioca. Alguém parou para imaginar se toda a galera do mal, com o poder de fogo que tem, resolvesse barbarizar mesmo o asfalto? Basta querer. Porque quando querem, derrubam helicóptero, fazem atentados orquestrados, comandam execuções dos presídios e o que mais acharem legal.

Fausto Fawcett já nos alertou que o Rio é uma cidade de cidades misturadas. Tá tudo junto, asfalto e favela, bandido e mocinho, traficante e senhorinha, delinqüente e patricinha. Tiroteio e arrastão nas linhas expressas e Avenida Brasil? Era para ter mais. Já viu os locais que elas cortam? Praticamente o quintal do tráfico.

Confronto Macacos x São João? Foi pouco. Lembrando que cerca de 100 homens com fuzis no braço cruzaram ruas da cidade em carros de passeio para chegarem ao local. Os três jovens inocentes que chegavam de uma festa e foram assassinados na entrada da comunidade é uma prova de que a carnificina poderia ter começado muito antes. Quem ia controlar?

Tijuca violenta? Era para ser pior. Bairro refém da geografia dos morros, é um grande hall da bandidagem. Copacabana violenta? Era para ser pior. Pavão, Cantagalo, Tabajaras … Lembrando que na invasão ao Tabajaras, no ano passado, um grupo de traficantes armados foi preso dentro de uma van que cruzava a Rua Siqueira Campos, por volta das 19 horas. As famílias todas na rua. Se rola um tiroteio mesmo daqueles …

Ah, fora o Carnaval, ali na meiuca do Sambódromo cercado de favelas. Uma paz, não? Sempre lembro do filme “Orfeu do Carnaval”, na versão de Cacá Diegues, em que um jovenzinho aparece em uma laje de um barraco no Morro da Mineira. Ele assiste ao desfile das Escolas de Samba pela mira de seu fuzil, procurando o protagonista. Ao localizá-lo, desfilando, imagina apertando o gatilho. Simples assim. Era só apertar. A cena nada mais é do que uma situação perfeitamente possível.

Sou solidário a todas as vítimas de violência, me penalizo com a morte de inocentes e acredito que só a polícia, reduzida, não resolve. Tem que ter peito para resolver isso tudo. Ou alguém ainda acredita que é o jovem de bermuda, chinelo e pistola o grande mentor disso tudo?

E outra, morar na Cidade Maravilhosa, cartão postal do mundo, padrão forçado de comportamento para o resto do Brasil, a cidade dos sonhos e do progresso, repleta de desigualdades, tinha que ter um preço. E podia ser mais caro, não tenham dúvida.

O fator Lula

30 de outubro de 2009

Dia desses vi um documentário sobre Silvio Berlusconi. Como este homem, mergulhado em escândalos pessoais e políticos, consegue se perpetuar no poder com o apoio de boa parte dos italianos? 

Manobras judiciais e uso da máquina e de seu império de comunicação foram uma das respostas dadas. Trivial aos inescrupulosos. 

Resolvi trazer essa questão para o Brasil. Como pode um presidente se envolver em tantas questões polêmicas e ainda assim ser o mais querido, com a popularidade nunca abaixo de 50%? A última do velho foi o ataque ao papel da imprensa, um questionamento nada democrático. Aliás, críticas que vêm se repetindo sutilmente desde a fracassada tentativa do próprio em criar o tal Conselho de Jornalismo, com artigos bastante questionáveis. Fora os afagos a mensaleiros e declarações nada diplomáticas.

Enfim, pude perceber o poder de sua aura bondosa em um recente evento em que ele esteve presente. Era a assinatura de um acordo para regularizar o setor canavieiro. Centenas de cortadores de cana estiveram lá, assim como os mais gladiadores e implacáveis repórteres de Brasilia que matariam a mãe por uma boa manchete. 

Eis que o líder começa a discursar. Não bastasse a força e a simplicidade do discurso, que agrada a todo tipo de público, ainda há os simbolismos. Um afago sincero a uma senhora, cortadora de cana, implodiu a fúria jornalística que imperava. “Assim fica difícil dar porrada”, ouvi de uma veterana dos impressos. Mas a emoção durou pouco e foram com tudo para cima de Luiz Inácio. Só não lembro qual era a polêmica. Ou seja, a estratégia involuntária do presidente deu certo. Se eu, suposto olheiro das entrelinhas, sucumbi àquele clima, imagine quantos outros. E assim tem sido Brasil afora … 

Bom, isso pode explicar muita coisa. Lula não precisa de subterfúgios judiciais ou antiéticos para ser querido e aceito de A a Z. Basta falar, abraçar e sorrir. A diferença é que tudo é feito legitimamente, como se estivesse em uma roda de bons amigos. Receitinha simples, mas que não é para qualquer um. Tem que ter dom. É bom não subestimar o poder deste homem em 2010 …

Um helicóptero que cai …

23 de outubro de 2009

Tenho uma pequena vivência na cobertura policial carioca. Que sempre foi perigoso, isso é inquestionável. Mas depois dos conflitos São João x Macacos, noto que dessa vez os bandidos disseram a que vieram. E o símbolo máximo da soberania deles, para mim, é o helicóptero abatido, com três policiais mortos.

Há um gigante simbolismo naquilo tudo. Mostrou uma corporação vulnerável diante de um delinqüente armado. Nem as máquinas o detém. Ouvi, inclusive, uma história de que quem o abateu, foi um rapaz de 17 anos. Virou herói da bandidagem e foi comemorar o feito com a namorada e alguns amigos em uma cidade da Região dos Lagos. Enquanto isso, a família dos jovens e PMs mortos na guerra providenciavam documentos para enterros.

Da queda em diante, quem prestou atenção, viu uma polícia amedrontada com aquela grita e com uma sensação de que não há muito o que fazer. O poder de fogo do adversário é infinitamente maior e ele ainda conta com proteções e privilégios de vários setores que deveriam combatê-lo. E o mais importante. Uma audácia exemplar. Não há limites de enfrentamento.

Os policiais estão com medo, sim. Mas não podem dizer isso oficialmente. Fizeram juramento de dar a vida em combate, se preciso for. Mas nesta condição de desigualdade, é suicídio. E somente os soldados e oficiais honestos é que se ferram nessa história. Porque o corrupto, já levou sua vantagem e desfruta de um bom descanso em algum confortável lugar da cidade. Os que honram a farda, morrem queimados ou baleados. Também considero estes PMs vítimas. Vítimas da violência urbana e dos próprios colegas. Pois como se não bastasse, no dia seguinte a tudo câmeras captam PMs roubando ladrão e esquecendo vítima morta no chão. Fora o que não sabemos… Aí fica difícil mesmo …

Solução? Talvez. Enquanto isso, adoto minhas próprias precauções. Salve-se quem puder!

Rio 2016. Legado? Tomara …

3 de outubro de 2009

Olimpíadas 2016 no Rio de Janeiro.

Claro que a gente fica feliz com a notícia. Não precisamos ser tão radicais e bancarmos o rabugento pensando que essa conquista será para poucos. Mas não custa ficar de olho mesmo.

Lendo O Globo na semana do anúncio da cidade sede, vi uma notícia interessante. Parte da população de Chicago não gostaria que ela levasse esse título. Motivo: medo que os políticos desviassem os recursos. Pelo visto a credibilidade da classe de lá anda em baixa. Não acompanho. Já aqui, sabemos bem como é …

De cara, serão cerca de R$ 29 bilhões para realizar o evento. Claro que estas cifras subirão, vide Pan 2007, cujos valores dobraram estranhamente. Logo, o que mais se espera é seriedade na condução desse processo. Com tanta coisa para se corrigir até lá, ficar sabendo que alguém está com as contas bancárias mais inchadas por conta das Olimpíadas é feio e preocupante.

Digo isso, pois o Comitê Olímpico Internacional (COI) não vai gostar de saber disso também. E vai fazer questão de espalhar para o mundo como foi questionável a condução dos jogos no Brasil. Ou alguém ainda acha que não tem uma galera estrangeira, principalmente sul-americana, torcendo para dizer no final: “Também, fica dando oportunidade para esse povo. Dá no que dá …”

E outra. Pega mal também o país sede das Olimpíadas manter aquela fraca posição no quadro de medalhas. Não digo também que a gente vai virar China e EUA, mas dá para melhorar, sim.

Sem querer defender Cesar Maia, mas lembro de um interessante projeto de sua gestão como prefeito do Rio de Janeiro: as Vilas Olímpicas. O objetivo era formar jovens, principalmente carentes, para o esporte, visando, justamente, as Olimpíadas. Uma tentativa tímida, que até renderam alguns frutos, mas como toda boa idéia em política, acaba acabando.

Bom, o Governo precisa mesmo incentivar um programa de esportes pesado, pois tá cheio de atleta bom por aí, mas que precisa de incentivo para crescer. Fora que é mais um mercado gerador de empregos e impulsionador da economia. Fora o lado social. Não é, Fidel Castro?

Enfim, claro que vou torcer muito para dar certo. Mas vou rezar bastante também. Como lembraram os governantes, essa era a oportunidade que o Brasil precisava. E oportunidades passam. Saibamos aproveitar mesmo.

Nem foi tempo perdido …

21 de setembro de 2009

Domingão de preguiça depois de três aniversários de pessoas queridas. Mesmo destruído e chovendo, achei por bem aceitar o convite para ir a 12ª edição do Porão do Rock, tradicional evento cultural de Brasilia, o qual já ouvira falar bastante. E bem. Logo, não custava nada deixar a preguiça de lado e ouvir um pouco do ritmo. 

Cheguei muito bem acompanhado ao palco montado na Esplanada dos Ministérios. Rolava aquele clima bom de liberdade, com aquela grama que virou lama e uma galera do bem muito louca! Perdemos a Plebe Rude, mas chegamos a tempo de assistir os Paralamas do Sucesso enlouquecendo marmanjos e novatos com seus clássicos. Um show honesto e empolgante. Por mim, a noite já tinha sido garantida com aqueles caras. Que engano … 

Ouço as meninas dizendo, com a maior naturalidade do mundo, que a Legião Urbana era a próxima a entrar. Legião Urbana?!?!?! Bom, pensei, deve ser uma banda cover. Passado o som, entra no telão um filminho com um resumo da história da banda até a partida de seu líder maior. Bem editado e emocionante. Era a prévia do que estava por vir. 

Qual não foi minha surpresa e espanto ao ver Dado e Bonfá invadindo o espaço e começando os acordes do que foi uma das trilhas sonoras de minha adolescência e de tantos outros. Claro que a falta de Renato era explícita, mas aquela iniciativa tinha um significado muito maior. Vocalistas de bandas locais revezavam. Herbert Vianna também deixou seu recado. Até Loro Jones surgiu como um ermitão. Bonfá parecia criança. 

Bonito de se ver … 

O show termina em clima de total nostalgia e paz. Deu saudade mesmo … Uma banda local emendou, mas não esquentou tanto. O Little Quail mandou muito bem com um punk rock pra lá de bem humorado que me arrancou gargalhadas. Os caras são bons mesmo. Faltou assistir Raimundos, mas os movimentos do corpo já não respondiam. Fomos embora.

Voltei muito feliz para casa. Ouvir “Tempos Perdidos” e “Que País é Este” tocadas pelos próprios em plena Esplanada e de frente para o Congresso Nacional é uma experiência difícil de explicar. Chorar é o mínimo. Saí com mais certeza ainda de que o país deve muito a Brasilia pela confirmação do rock nacional. Foi dado o recado mais uma vez naquela noite. É preciso aprender algumas coisas com esse povo.

Twitter: Ivete, Xuxa e Moacyr Luz

18 de setembro de 2009

Sou seguidor de Ivete Sangalo no Twitter. Gosto dela. Mas isso não vem ao caso. 

É que achei curioso como a artista explora bem a ferramenta a seu favor. Na descrição, ela já avisa que quem o escreve é sua equipe de produção e também a própria, quando tem tempo. Honesto. 

Mas lendo os tópicos, pinta no seguidor uma dúvida se Ivete está presente na maior parte do tempo. Os recursos lingüísticos são bem informais e chegam bem perto de seu linguajar. Uma dúvida interessante. 

A última novidade foi um concurso que ela bolou (será que foi ela mesmo?) dos mais bonitos e mais bonitas do Twitter. Bobinho, mas que deu um ibope danado. A todo o momento o povo mandava foto e ela disparava um comentário. Ao fim da escolha, ela pedia o telefone do ganhador e ligava. Depois do breve papo, ela resumia a conversa em um twitt, tipo como uma prova de que ligou mesmo. 

E sempre com uns recadinhos cumprimentando, desejando bom dia, dizendo o que fez, onde está. A pessoa acaba se sentindo amigo da artista mesmo. 

Enfim, não me iludo. Ela e equipe criaram uma puta ação de marketing que só a eleva no gosto do público. Um espaço para os fãs, que se sentem amigos próximos a cada post ou ligação. E ela, com humildade e sabedoria, obedece a recomendação dos profissionais e dispõe de um tempinho para falar com a galera ao telefone. 

Comentando o fato com meu sábio amigo Rodrigo Rozendo, ele resumiu o assunto com uma boa observação. “Um comportamento oposto ao da Xuxa, que ganhou a alcunha de antipática do Twitter”. Pois é. 

Para fechar, destaco também o grande Moacyr Luz, que está no Twitter, e respondeu com muito bom humor e carinho a uma piadinha do Rodrigo. Podia ter ficado puto, ou ignorado, mas fez o contrário. Viraram amigos virtuais. E a admiração pelo artista só aumentou.

Novelas: receitas de bolo?

15 de setembro de 2009

Sou de um tempo em que assistir novelas era realmente mergulhar na fantasia e na imprevisibilidade. 

Sou do tempo em que uma viúva extravagante botava o coronel do sertão para imitar cachorrinho, em que um padre tinha forte consciência política, em que um discreto cidadão virava lobisomem à meia-noite, em que uma assassina e um estelionatário têm final feliz, em que o cirurgião inescrupuloso tirava a virgindade de uma mocinha antes do marido com quem acabara de casar… 

Havia mais originalidade e os personagens eram realmente personagens. Dava gosto viajar naquela construção dramatúrgica. 

Agora sabemos que a próxima novela terá uma Helena, como mártir do universo feminino. José Mayer comerá todas as mulheres da trama. Haverá um casal em crise em que o marido separa para ficar com uma garotinha, geralmente colega ou inimiga da filha. Vai também ter uma esposa retraída, que se decepciona com a cunhada que transa com seu filho mais novo. E um discurso que gira em torno de costumes cariocas, como se o país se resumisse ao Leblon. Ah, e um depoimento ao final de cada capítulo, como forma de lição.   

Dizem que o padrão ajuda a cativar a audiência e sua comercialização para o exterior. E vende mesmo. Mas é bom lembrar que “A Escrava Isaura” foi a novela que mais viajou pelo mundo, cem países. E é de 1976 … Será que alguma outra, mais recente, chegou a essa marca? 

Tudo bem, Taís Araújo e Alinne Moraes estão estonteantes e beleza agrada os olhos, mas … Talvez esteja sendo saudosista e pouco antenado às mudanças, mas tenho saudades de boas interpretações de comédia lúdica e de personagens menos reais. Por isso, continuo achando melhor a historinha de Paraíso, mais cedo. E ainda assim está adaptada demais.